Deixar o emprego pela segunda mão: em que momento avançar
Começa muitas vezes num domingo à noite. Fizeste um bom mês, os teus anúncios andam a rodar e a ideia instala-se: e se deixasse o outro trabalho?
A pergunta que se faz nessa altura é quase sempre a errada. Não é «serei capaz»: se já vendes com regularidade, a resposta é provavelmente sim. A verdadeira pergunta é «em que momento», e decide-se com quatro números em vez de uma intuição.
Eis como saber se já lá chegaste, e como sair sem pôr tudo em jogo de uma só vez.
A armadilha do melhor mês
O erro mais comum consiste em olhar para o melhor mês e multiplicá-lo por doze.
A segunda mão é uma atividade claramente sazonal. Novembro e dezembro não se parecem com julho, o regresso às aulas não se parece com a primavera, e as quebras são tão estruturais como os picos. Projetar um ano inteiro a partir de um mês de dezembro dá um plano que não sobreviverá ao seu primeiro mês de agosto.
A boa referência é o inverso: o piso. Pega no pior mês dos últimos doze. Já cobre os encargos fixos do agregado? Se sim, tens uma base. Se não, sabes exatamente quanto te falta e em que mês trabalhar.
Os quatro números a reunir antes de decidir
1. O rendimento líquido regular ao longo de doze meses
Líquido quer dizer depois do preço de compra do stock, dos portes não refaturados, das contribuições e das subscrições. Muitas vendedoras conhecem a faturação mas não o rendimento, e a diferença entre os dois é considerável. Se esse cálculo ainda não está feito, é por aí que se começa: o nosso artigo sobre calcular a tua margem de vendedora detalha o método.
2. A parte que assenta em stock já comprado
É o número que ninguém olha, e é o mais revelador. Se a maior parte das tuas vendas dos últimos seis meses vem de um stock constituído antes, estás a escoar um capital, não a fazer rodar uma atividade.
O teste é simples: nos últimos três meses, que proporção das tuas vendas vem de peças compradas durante esses mesmos três meses? Se a resposta for baixa, o teu modelo ainda não provou que se renova.
3. A necessidade real do agregado
Não o nível de vida atual, a necessidade. Renda ou crédito, energia, alimentação, transporte, seguros, guarda das crianças. Acrescenta uma linha que os trabalhadores por conta de outrem esquecem sistematicamente: a cobertura dos períodos sem atividade, baixa por doença incluída.
4. A tesouraria disponível fora do stock
O stock não é tesouraria. É a confusão mais cara do ofício: um stock de vários milhares de euros de valor de revenda não paga uma renda no dia 5 do mês.
É preciso dinheiro mobilizável, distinto do stock, para cobrir vários meses de encargos e voltar a comprar durante os períodos fracos. O assunto é tratado em detalhe no nosso artigo sobre a tesouraria e o stock parado.
O teste que vale mais do que um plano de negócios
Antes de decidir, faz o teste do mês a pleno regime. Marca férias e, durante um mês inteiro, trata a atividade como se fosse a tua profissão. Anota as horas realmente dedicadas, dia a dia.
O objetivo não é bater um recorde. É medir duas coisas que não consegues adivinhar de outra forma.
O teu teto. Muitas descobrem nesse momento que o valor não duplica quando o tempo duplica. O abastecimento não acompanha, os dias de fotografias chegam ao limite, a procura não se inventa. É uma informação preciosa, e muito menos dolorosa de descobrir de férias do que depois de um pedido de demissão.
O teu estado no fim do mês. O ofício é mais físico do que parece: carregar caixas, dias de pé, ecrãs, isolamento. Aguentar um mês não é aguentar um ano, mas não aguentar um mês é um sinal claro. O nosso artigo sobre organizar a tua semana de vendedora ajuda a estruturar este teste.
Três formas de sair sem arriscar tudo
A passagem brusca do salário para nada não é a única opção, e raramente é a melhor.
O tempo parcial. Passar a quatro dias, depois a três, permite testar o pleno regime mantendo um rendimento e uma cobertura. É a via mais segura, e de longe a mais frequente entre quem consegue.
A saída ajustada à época. Se tens de sair de uma só vez, fá-lo coincidir com a entrada na época alta em vez de uma quebra. Os primeiros meses sem salário são os mais tensos: mais vale que caiam no período mais rentável do ano.
A saída negociada. As modalidades de saída não abrem os mesmos direitos consoante as situações, e as regras mudam com regularidade. A diferença entre duas formas de sair pode representar vários meses de tesouraria, o que muda tudo no arranque. Informa-te no centro de emprego (IEFP) e, se puderes, com um consultor especializado em criação de empresas, antes de anunciar seja o que for.
Os sinais que dizem «ainda não»
Quatro situações merecem esperar. Nenhuma é definitiva, todas têm solução, mas nenhuma se resolve com conforto quando a atividade se tornou o teu único rendimento.
- O teu valor assenta num stock comprado há muito tempo e não renovado.
- Uma só época sustenta grande parte do ano.
- Não tens tesouraria fora do stock.
- O teu abastecimento depende de uma fonte única, que pode parar sem aviso.
Este último ponto é o mais subestimado. Uma fonte que fecha, um fornecedor que muda de política, uma depositante que desiste: quando só há uma, a atividade para com ela.
Os sinais que dizem «é o momento»
Ao contrário, quatro indícios convergentes valem mais do que um bom mês isolado.
- O teu piso mensal cobre os encargos fixos, em doze meses móveis.
- As tuas vendas vêm maioritariamente de stock comprado recentemente.
- Tens várias fontes de abastecimento que funcionam.
- Recusas volume por falta de tempo, não por falta de procura.
Este último ponto é o melhor sinal que existe. No dia em que o fator limitante é o teu tempo e já não o teu mercado, o cálculo torna-se favorável: libertar tempo produz mecanicamente faturação. Enquanto o fator limitante for a procura, libertar tempo não produz nada.
O que muda mesmo no dia em que é o teu único rendimento
A mudança mais profunda não é financeira, é mental, e diz respeito ao stock.
Enquanto há um salário, um lote que não sai é uma deceção. Quando é o teu único rendimento, esse mesmo lote torna-se tesouraria imobilizada que te falta para voltar a comprar. A rotação passa a ser mais importante do que a margem apresentada: mais vale uma peça vendida depressa a margem correta do que uma peça perfeita que dorme seis meses.
É também o momento em que as ferramentas deixam de ser um conforto. Quando cada hora conta e o stock se conta às centenas de referências, a reintrodução manual torna-se a primeira fonte de perda. As vendedoras que passam a tempo inteiro equipam-se quase todas com uma ferramenta de gestão para vendedor profissional nas primeiras semanas.
Por fim, a regularidade substitui o ímpeto. Numa atividade em paralelo, avança-se por picos de motivação ao fim de semana. A tempo inteiro, são as semanas banais de fevereiro que fazem o ano. É o tema do nosso artigo sobre viver da segunda mão.
Por onde começar esta semana
Tira os teus últimos doze meses e identifica o teu piso, não a tua média. Calcula depois a parte das tuas vendas vinda de stock recente. Estes dois números por si só dir-te-ão se a pergunta é «quando» ou «ainda não».
E se estás no segundo caso, não é uma recusa. É uma lista de três ou quatro coisas a corrigir, com um salário para amortecer o tempo que isso leva. É a posição mais confortável para o fazer.
Passar a tempo inteiro sem improvisar
A formação Dresskool cobre o cálculo da margem, a construção do abastecimento e a organização de uma semana de vendedora a tempo inteiro.
Juntar-me à DresskoolFAQ
Quanto é preciso ganhar na segunda mão antes de deixar o emprego?
Olha para o rendimento líquido regular ao longo de doze meses, não para o melhor mês. A referência de trabalho mais sólida é o piso: o pior mês do ano passado já deve cobrir os encargos fixos do agregado. Um dezembro muito bom nada diz sobre a viabilidade, porque a segunda mão é uma atividade fortemente sazonal.
Quais são os sinais que dizem que ainda não é o momento?
Uma faturação que assenta num stock já comprado e não renovado, uma época alta que sustenta grande parte do ano, a ausência de tesouraria disponível fora do stock e um abastecimento que depende de uma fonte única. Cada um destes pontos tem solução, mas nenhum se resolve depois de a atividade se tornar o teu único rendimento.
O teste do mês a pleno regime, como funciona?
Durante um mês, marca férias e trabalha a atividade como se fosse a tua profissão, anotando as horas realmente dedicadas. O objetivo não é bater um recorde de faturação, mas medir duas coisas: o teto que atinges dedicando-lhe todo o teu tempo e o estado em que terminas o mês. Muitos descobrem que o valor não duplica quando o tempo duplica.
É melhor demitir-se ou negociar a saída?
As modalidades de saída não abrem os mesmos direitos consoante a tua situação, e as regras mudam. Antes de qualquer decisão, informa-te no centro de emprego (IEFP) e, se possível, com um consultor especializado em criação de empresas: a diferença entre duas formas de sair pode representar vários meses de tesouraria, o que muda tudo no arranque.
Pode-se avançar de forma progressiva em vez de tudo de uma vez?
É a via mais segura e a mais frequente. O tempo parcial permite testar o pleno regime em dois ou três dias por semana mantendo um rendimento. A outra opção é fazer coincidir a saída com a entrada na época alta, para que os primeiros meses sem salário sejam os mais rentáveis do ano em vez dos mais fracos.
O que muda quando a segunda mão se torna o único rendimento?
A relação com o stock, sobretudo. Enquanto há um salário, um lote que não sai é uma deceção. Quando é o único rendimento, é tesouraria imobilizada que te falta para voltar a comprar. A disciplina de rotação passa a ser mais importante do que a margem apresentada, e é a mudança de reflexo que a maioria subestima.